S1
Mini-Curso · Sessão S1 · 60 min

Geometria de Contato & o Sistema dm³

A arena: variedade de contato em dimensão 3, o campo de Reeb, e a EDO dissipativa cujo atrator é uma hélice. A geometria o força.

🎯 Objetivo: geometria de contato por exemplo trabalhado 📚 Pré-req: EDO graduação 🖥️ Modo: aula + simulador ao vivo
S1 · GEOMETRIA DE CONTATO
S2 · TEOREMA 2.1 & BACIA
S3 · ESQUELETO LEAN 4

Agenda da Sessão · 60 Minutos

  1. 0 – 12 minVariedades de contato. Por que \(\alpha = dz - r^2\,d\theta\) em \(\mathbb{R}^3\) é o protótipo.
  2. 12 – 25 minO campo de Reeb. Por que a não-integrabilidade de \(\xi = \ker\alpha\) transforma órbitas periódicas em hélices.
  3. 25 – 40 minA EDO dm³: forma normal de Hopf com acoplamento sensitivo ao contato \(\varepsilon(r-1)e^{-z}\).
  4. 40 – 55 minSimulador ao vivo. Trajetórias de múltiplos \(r(0)\); o que espirala para dentro, o que escapa.
  5. 55 – 60 minTransição para S2: a bola simétrica de Gronwall \(\varepsilon_0 = 1/3\) que vamos corrigir depois.
§1 · Fundação

O Que é uma Variedade de Contato em Dimensão 3?

A dinâmica clássica gosta da geometria simpléctica — espaços de fase de dimensão par, fluxos que preservam área. Mas sistemas vivos, clima, o relógio circadiano: todos acontecem em dimensões ímpares e todos giram. A geometria de contato é a prima de dimensão ímpar da geometria simpléctica. É o cenário natural para fluxos rotativos dissipativos.

Definição 1.1 · Variedade de Contato em Dimensão 3

Uma variedade de contato em dimensão 3 é um par \((M, \xi)\) onde \(M\) é uma 3-variedade suave e \(\xi\) é um campo de planos totalmente não-integrável. A não-integrabilidade é capturada por uma 1-forma \(\alpha\) com \(\xi = \ker\alpha\) e

\[\alpha \wedge d\alpha \;\ne\; 0 \quad \text{em todo ponto de } M.\]

A forma \(\alpha\) é chamada forma de contato. Não-integrabilidade significa: em nenhum ponto existe uma pequena superfície integral 2-dimensional tangente a \(\xi\). Geometricamente: os planos giram tão violentamente que recusam-se a se montar em superfícies.

O protótipo: \(\mathbb{R}^3\) com \(\alpha = dz - r^2\,d\theta\)

Use coordenadas cilíndricas \((r, \theta, z)\) em \(\mathbb{R}^3 \setminus \{r = 0\}\). Defina

\[\alpha \;=\; dz \;-\; r^2\,d\theta.\]

Calcule \(d\alpha = -2r\,dr\wedge d\theta\), então

\[\alpha \wedge d\alpha \;=\; (dz - r^2\,d\theta)\wedge(-2r\,dr\wedge d\theta) \;=\; -2r\,dz\wedge dr\wedge d\theta \;\ne\; 0.\]

Isso prova que \((\mathbb{R}^3, \ker\alpha)\) é uma variedade de contato em dimensão 3. Os planos \(\xi\) giram em torno do eixo \(z\) por um ângulo que cresce com \(r\) — eles "sobregiram" para longe da vertical.

§2 · O Fluxo de Reeb Força Hélices

O Campo Vetorial de Reeb

Definição 2.1 · Campo de Reeb

Dada uma forma de contato \(\alpha\) em \(M\), o campo vetorial de Reeb \(R\) é o único campo vetorial satisfazendo

\[\alpha(R) = 1, \qquad d\alpha(R, \cdot) = 0.\]

É a "direção do tempo" natural em \((M, \xi)\) — transversal a todo plano de contato, e seu fluxo preserva \(\alpha\).

Para o protótipo \(\alpha = dz - r^2\,d\theta\), verifica-se que \(R = \partial_z\). O fluxo de Reeb é portanto translação vertical. A órbita-modelo que nos interessa é aquela que vive no cilindro \(r = 1\) e espirala uniformemente: \(\dot\theta = 1,\, \dot z = 1\). Essa é a hélice.

Afirmação · A Helicidade é Forçada

Órbitas periódicas planas não podem se levantar para a dinâmica de contato em \(\mathbb{R}^3\) sem se tornarem helicoidais.

Dada a não-integrabilidade \(\alpha\wedge d\alpha \ne 0\), qualquer trajetória fechada em um plano transversal a \(\xi\) deve ter componente \(dz\) não-nula por revolução. No protótipo: \(\oint dz = \oint r^2\,d\theta = 2\pi r^2 \ne 0\). Uma revolução em \(\theta\) força exatamente \(2\pi r^2\) unidades de subida vertical. Esta é a razão geométrica pela qual o atrator abaixo é uma hélice, não um círculo.

§3 · O Personagem Principal

O Sistema dm³

Estudamos o sistema autônomo em \(M = \mathbb{R}^3\) (em coordenadas cilíndricas) com acoplamento fixo \(\varepsilon = 2\):

\[\dot r \;=\; r(1 - r^2) \;+\; \varepsilon(r - 1)\,e^{-z}, \qquad \dot\theta \;=\; 1, \qquad \dot z \;=\; r^2 \;-\; \varepsilon(r - 1)^2\,e^{-z}.\]

Equação (1) · a EDO dm³ · preprint §2

Anatomia da equação radial

Anatomia da equação vertical

No atrator \(r=1\) o termo de acoplamento se anula e \(\dot z = r^2 = 1\): velocidade vertical é exatamente 1. Combinado com \(\dot\theta = 1\), trajetórias em \(r = 1\) são parametrizadas por \((\cos t, \sin t, t)\) — a hélice unitária. Este é nosso \(\Gamma\): a órbita de Reeb de \(\alpha\) restrita a \(r=1\).

Observação · \(\Gamma\) não é uma conveniência teórica

É forçado por três fatos: (i) o termo de Hopf prende \(r=1\); (ii) o acoplamento de contato se anula ali; (iii) a forma de contato exige que \(\dot z\) seja igual a \(r^2\) no conjunto limite. Os três independentemente apontam para o mesmo objeto. O atrator não poderia ser outra coisa.

Por que \(\varepsilon\) importa

Ponha \(\varepsilon = 0\). O sistema se desacopla. Agora ponha \(\varepsilon = 2\). O termo de acoplamento é assimétrico em \(r\) (linear em \(r-1\)) e cresce exponencialmente quando \(z\) é negativo. Essa combinação assimetria/exponencial é a fonte da surpresa pedagógica que vamos expor em S2: a bacia de atração de \(\Gamma\) não é uma vizinhança simétrica de \(r=1\).

Antecipando S2: Uma estimativa de Gronwall nos dará uma bola simétrica \(|r-1| < 1/3\) de convergência garantida. A numeração mostrará que a fronteira interna real está em \(r \approx 0{,}80\), não em \(r = 2/3\). A estimativa simétrica não é apenas grosseira — ela classifica erroneamente órbitas. Esta é a contribuição pedagógica central do curso.
§4 · Explore

Simulador ao Vivo — Veja a Hélice se Formar

▶ Fluxo de Contato dm³ — Vista 3D · Arraste para girar · scroll para zoom

Experimentos guiados para o segmento de 15 minutos

  1. Confirme a hélice. Defina \(r_0 = 1{,}0\), \(\varepsilon = 0\). Observe a trajetória aderir a \(r=1\) enquanto sobe. Aumente \(\varepsilon\) para \(2\) — a trajetória ainda aterrissa na hélice; o acoplamento não perturba \(\Gamma\) em si.
  2. Bacia exterior. Experimente \(r_0 \in \{1{,}1,\, 1{,}5,\, 2{,}5\}\) com \(\varepsilon = 2\). Todas convergem. Note com que rapidez se aproximam de \(r=1\).
  3. Armadilha interior. Experimente \(r_0 = 0{,}9,\, 0{,}8,\, 0{,}7\). Algo interessante acontece entre 0,9 e 0,7. Você vai sentir a fronteira assimétrica antes de prová-la.
  4. Leia \(\mu\). Note que a taxa \(\hat\mu\) converge para um número perto de \(-2\) enquanto \(r\) se aproxima de \(1\). Esta é a observação-chave para S2.
§5 · O Que Vem a Seguir

Transição para a Sessão S2

Você agora viu:

Em S2 provamos a convergência exponencial rigorosamente: a linearização dá autovalor \(-2\), Gronwall dá uma bola simétrica \(|r-1| < 1/3\) de contração garantida, e o integrador DOP853 de alta precisão nos dá a Tabela 1 — que corrige a fronteira interior para \(r_\star \approx 0{,}80\). A correção é o coração pedagógico do curso.

Exercício de Quadro · Para levar para S2

Verifique que \(\{r > 1\}\) é positivamente invariante.

Mostre que ao longo das soluções de (1), se \(r(0) > 1\) então \(r(t) > 1\) para todo \(t \geq 0\). Dica: calcule \(\dot r\) em \(r = 1\). O sinal do acoplamento de contato em \(r = 1\) é zero; o que \(r(1-r^2)\) contribui em \(r = 1 + \delta\) para \(\delta > 0\) pequeno? Esta invariância é o que permite o argumento de Gronwall rodar sem ambiguidade de sinal.

A bacia exterior é fácil. A fronteira interior é difícil. Esse é o curso inteiro em uma frase. Leve isso para S2.